Crítica: “A Bela e a Fera” erra e acerta na mesma medida, mas não perde o encanto



Assim como toda boa história de amor, A Bela e a Fera atravessa gerações. O remake que a Disney quis fazer claramente seguia mais pelo caminho da homenagem ao clássico do que necessariamente de algum tipo de atualização. Com algumas mudanças e extensões na narrativa, esse último ponto acaba sendo feito, bem como o primeiro. Contudo, nada aqui é exatamente perfeito como poderia ter sido, o que não tira o mérito do filme, mas desaponta em alguns aspectos.

Antes de ver a história em ação, nossa animação já é posta em voga pelas pessoas envolvidas nas atuações. Grandes nomes da arte cinematográfica compõe um elenco polido que sabe trabalhar seus personagens perfeitamente.

Podemos falar isso desde Stanley Tucci, que não tem tanto tempo de tela, quanto da protagonista. Emma Watson entrega uma Bela menos ingênua e mais cansada da vila em que vive. Vemos em suas expressões o sentimento de deslocamento da personagem, que não suporta viver naquele lugar que claramente não é para ela. Mesmo assim, há coisas que fogem da atriz e interferem na construção de Bela. É o caso da modificação vocal que fazem nas cordas vocais de Watson. É um trabalho meio inconstante que no mesmo instante que deixa a voz da atriz extremamente diferente na canção "Belle", deixa-a reconhecível e familiar em "Belle (Reprise)". Outro que sofre com as manipulações é Dan Stevens.

A bestificação de sua voz é bem-vinda, mas todo o visual da Fera é decepcionante em um nível estratosférico. É desconfortável ver a computação gráfica pobre que o estúdio aceitou levar para o público. Por diversas vezes a Fera parece colada nas cenas, dura em seus movimentos e plastificada em comparação à Bela. Isso interfere na icônica cena do baile, que se não fosse o poder dessa história e da interpretação lindamente contida que Emma Thompson dá ao cantar "Beauty and the Beast", seria ainda mais aquém. O mesmo problema acontece com a canção original "Evermore", que tem sua beleza, mas sofre visualmente por ser interpretada inteiramente por um Dan Stevens que vira uma massa gráfica andando de um lado para outro em uma torre.



Ao menos os outros números musicais são de encher os olhos. A inserção da multidão em algumas canções eleva o tom teatral do filme e as coreografias são de encher os olhos. Infelizmente, a direção de Bill Condon às vezes parece entrar no caminho, como é o caso da cena de "Be Our Guest". Um espetáculo visual, a encenação às vezes se perde nos planos fechados do diretor, que parece não ter muita aptidão para controlar a câmera sem sair enfiando-a sem jeito entre alguns buracos. Durante todo o filme, Condon dá zooms exagerados, faz movimentos preguiçosos de travelling e quase esvazia de sentido alguns planos. Ao menos na interpretação da canção citada, Ewan McGregor, que carrega a cena, deixa a audiência tão maravilhada quanto a convidada Bela. Aliás, a dublagem é um dos pontos altos do longa, mostrando novamente o primor das atuações no filme.

Um ponto de destaque nesse quesito é Luke Evans e Josh Gad. A relação de Gaston e LeFou é incrivelmente bem construída, dando espaço para que o desenvolvimento do personagem de Evans o transforme em um vilão mais do que competente. De um homem narcisista a alguém sem escrúpulos, Gaston é o antagonista perfeito à uma Fera assustadora que foi vítima de maus tratos na infância. O roteiro é certeiro ao criar camadas para seus personagens, mesmo que às vezes também escorregue no meio do caminho. A inserção de um novo item mágico à trama não acrescenta em nada e a presença da feiticeira soa meio deslocada.

Em meio a isso tudo, o filme consegue usar a questão da ligação emocional que qualquer remake tem a seu favor e deve grande parte disso aos nomes que estão de frente às câmeras. Além disso, o longa se sustenta mesmo com suas falhas porque é a transposição de um bom conto de amor e, querendo ou não, a maioria dos pontos negativos tangem o roteiro, mas não interferem nele. Há espaço para alguns subtextos e, principalmente, para a construção da relação entre os protagonistas. É bonito ver a amizade que se desenvolve entre os dois, porque no meio de toda ficcionalização isso se mostra palpável. Em seu cerne, o filme é uma história de comprovação de que o amor, de algum modo, sempre faz parte das relações humanas, principalmente daquelas que precisam de tempo para se despir e se descobrir.


quedelicianegente.com