O Papo dessa quinzena, que vem um pouco atrasadinho, é sobre essa mania quase patológica das pessoas de rotularem tudo e todos, o que, de fato, nunca deixou de existir.
Essa necessidade voraz de rotulação parece querer nos fazer estáticos perante às possibilidades que aparecem em nossa frente. É quase como uma hipocrisia normativa que não deixa que você seja livre para transitar quanto à sexo, gênero e/ou sexualidade.
Sabemos que o cérebro humano funciona por meio de comparações. Isso é escuro, porque aquilo é claro. A questão é que tendemos a levar essa simetria separativa para todos os campos da nossa vida, incluso o social/sexual. O homem é o oposto da mulher (quando sabemos que a mulher na verdade é vista como um não-homem), a heterossexualidade é o contrário da homossexualidade (mesmo que saibamos que não existe essa diferença espelhada). Essa fixação vesgamente opositiva deturpa muitas coisas, como por exemplo a dificuldade em entender que sexo biológico, gênero social e sexualidade não são a mesma coisa.
Isso ainda traz mais problemas quando, linguisticamente, somos forçados a nomear o que somos. Dar nome às coisas obviamente facilita nossa compreensão de mundo, mas às vezes acaba por ser um modo de separar e afastar uma coisa da outra. Se me nomeio hétero, logo não posso beijar rapazes (e muito menos beber água no canudinho, claro). Você tem que ser gay ou hétero, não pode escorregar na definição de um e não contemplar completamente a determinação de outro.
Só que nos esquecemos o seguinte: se você é um cis-homem que se entende hétero e quer ~brincar com o primo~, quem se importa?! O desejo é seu e enquanto você não agride o direito do outro também ter o desejo dele, não deveria interessar a ninguém o que quer fazer com o seu corpo.
Estamos inseridos em uma cultura tão machista e separatista que não nos permitimos transitar (e muito menos permitimos que outros o façam). Se uma lésbica demonstra o desejo de ficar com um homem, isso não a faz menos lésbica, mesmo que alguns possam achar uma incompatibilidade alarmante. O mesmo para os gays. Você também tem o direito de ser bissexual sem ser tachado como indeciso por todos os outros grupos. No contexto que estamos inseridos (ou nos fazemos estar), se um homem é hétero, não se espera nunquinha que ele possa querer se relacionar com outro homem. Isso acontece porque nossa sociedade opressora quer colar um rótulo naquela pessoa para que nos sintamos confortáveis com o desejo dela. Só que, fofa, você não tem que esperar nada do desejo do outro.
Essa rotulagem é cansativa e parece funcionar quase como uma normatização do diferente. Triste é perceber que ela está dada em qualquer círculo. Ou você nunca ouviu o discurso implícito de “Ok, a diversidade existe e você é gay, mas, então, não pode ir para cama com mulheres” da boca de um conhecido? Ninguém tem o direito de colocar uma pessoa em um lugar social e achar ruim quando ela decide fazer a cirandinha e pular pro quadrado que quiser.
Falta a compreensão básica de que o desejo é fluido, que cada um sabe como e onde quer encaixar a sua vontade e que o mundo não é dividido somente entre enrustidos e não-enrustidos sexualmente. Obviamente a nomeação é importante e ajuda, por exemplo, a nos agrupar como indivíduos que lutam por uma causa e dividem gostos e opiniões. Mas, por favor, não seja a pessoa de cabeça aberta-fechada. Se não fere a liberdade de ninguém, deixe que os outros transitem por onde quiserem e, se esse for o objetivo, que vejam todas as bandas passarem.
quedelicianegente.com

Texto excelente, rótulos são tão babacas, e eu não aguento mais, porque "sou gay" mas fico com meninas, mas não me acho menos gay por isso, e vivem me perguntando o que eu sou, tipo, oi?, sou feliz, motherfuckers. hahaha
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