Papo: Globo tenta reviver seu humor com o zapeando de “Tá no Ar: A TV na TV”



Não é novidade para ninguém que o humor na TV aberta decaiu há muito tempo. Os dois maiores representantes, Zorra Total da Globo e A Praça É Nossa do SBT, não cativam nem mesmo a audiência leal desses dois canais.

Agora a empresa televisiva do finado Marinho decidiu que era hora de se reinventar. Fez isso através de uma aposta em uma reciclagem de formato (olá TV Pirata) e, finalmente, colocou Marcelo Adnet para trabalhar como sabe trabalhar.

O ex-contratado da MTV estava quase em um mini-frigobar da emissora. Seus quadros no Fantástico tentavam aproveitar seu talento, mas, diferente de sua colega Tatá Werneck, não conseguiu atingir nada de espetacular. A situação muda um pouco com Tá no Ar: A TV na TV, que estreou semana passada.


Você pode ver o programa completo aqui

O humorístico, como já dito, não é nada de novo. Nem na televisão brasileira, nem na própria Rede Globo. Mas em meio a tantas fórmulas inferiores já gastas, parece até um sopro de novidade. O programa se propõe uma zapeada por canais (coisa que o Comédia MTV já fazia) como forma de auto-referência/metaliguagem do meio.

A aparição da imitação de Sílvio Santos, por exemplo, é o ponto alto, justamente porque aqui a Globo, por 30 minutos, finge que esqueceu o próprio umbigo. Canais como Polishop e de prêmios também ganham sua rápida pincelada.

Porém, como todo programa humorístico, Tá no Ar também escorrega e erra ao tentar atingir o alvo corretamente. É o caso da esquete Jardim Urgente, que parodia o famoso Brasil Urgente. O apresentador mostra delitos de pequenos infratores: crianças com média de 5 anos. O discurso é absurdo e por isso mesmo engraçado e dentro desse contexto zoar o "pessoal dos Direitos Humanos" se dá por uma outra perspectiva. Mas será que só esse ponto de vista já consegue abarcar a questão de forma humorada?

O mesmo com o crítico "clandestino" da emissora. Ele aparece entre quadros para falar mal da Globo e reproduz aquele discurso vazio e sem qualquer conceituação de "Rede Esgoto de Televisão" que é quase como a passagem para o mundo dos pseudo-cults. Essa caricatura, contudo, também esbarra em um discurso válido de quem entende e critica certas escolhas da emissora. Se o humor inteligente é aquele que sabe em "quem bater", às vezes duvidamos que Adnet, Marcius Melhem, Renata Gaspar (também da MTV) e toda a companhia não souberam direcionar seus socos.

Talvez o maior trunfo do programa fique em seu encerramento. A esquete mostra, enquanto os créditos sobem, pessoas sendo entrevistadas na rua para falar sobre as impressões do programa. Uma diz que Adnet era melhor na MTV, outra que Melhem só funciona com Leandro Hassum e uma ainda fala que "eu só não gosto quando eles brincam com a minha religião. Ainda bem que eles debocharam foi dos macumbeiros e deixaram o meu Jesus em paz", em alusão ao quadro da Galinha Preta Pintadinha (que tem como amiguinhos a Pomba Gira e o Bode Espacho). Isso só serve para a introdução do clipe de "Muito Boa Nova", de JC de Nazaré, um Cristo rapper.

Tá no Ar não tem nada de novo nem em seu discurso (Porta dos Fundos que o diga), nem em seu estilo e muito menos no aproveitamento tardio de Adnet (que se contenta em utilizar formas que já dominava na MTV). A novidade fica por uma Rede Globo que tenta mostrar que começou a entender que o universo televisivo não está ilhado e que não reina absoluto há muito tempo.
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