Crítica: “Hoje Eu Quero Voltar Sozinho” e a eterna fase de descobrimento pessoal



Estreou, finalmente estreou Hoje Eu Quero Voltar Sozinho! Foi um caminho bem longo desde conhecer o lindo curta de Daniel Ribeiro, saber que ia virar filme, ver imagens,  teaser, trailer e culminar nesse longa metragem. Tanta espera, dúvidas e ansiedade valeram a pena, já que o filme traz a sensibilidade que já nos havia sido apresentada e que muitos receavam ter sido perdida.

Pra quem ainda não sabe (oi?), Hoje Eu Quero Voltar Sozinho conta a história do adolescente cego Leonardo (Guilherme Lobo), que vive toda a descoberta inerente à essa fase da vida (e que sempre nos acompanha) junto com sua amiga Giovana (Tess Amorim) e Gabriel (Fabio Audi), seu novo colega de classe por quem o menino se apaixona.



Diferente do curta, o filme não foca apenas na descoberta e construção da sexualidade dos três personagens principais. O longa também se mostra preocupado em destrinchar as relações que Leo tem com o mundo. Isso inclui planos de intercâmbio e, principalmente, a dinâmica familiar desenvolvida com os pais e a avó (interpretados por Eucir de Souza, Lúcia Romano e Selma Egrei). É justamente isso que nos faz entender a mudança do título.

Leo, como todo adolescente, quer ser independente e acumular experiências, mas nada disso fica mais fácil quando se é cego. A preocupação de sua mãe o impede até de se balançar em uma cadeira. Dessa forma, o menino se sente ainda mais podado e forçado a se manter em uma bolha sem a possibilidade de conseguir fazer o que deseja.

A amiga Giovana, sem querer, colabora com isso. Ela é o porto seguro e acaba por entender que essa zona de conforto em que coloca o amigo é mais do que confortável para ele. Daí sua paixão platônica que se mistura com uma amizade ciumenta, se vê ameaçada por Gabriel. Essa background story da personagem é ótima para demonstrar como Tess Amorim amadureceu sua atuação. A menina se sente confortável tanto quando deve ser alívio cômico, quando necessita canalizar o drama. Isso acaba por eclipsar um pouco a atuação do casal protagonista.

Fabio Audi é mecânico em muitas cenas que envolvem quaisquer outros personagens que não o trio. Na primeiro ato, Guilherme Lobo parece não incorporar muito bem o diálogo de seu personagem, mas depois demonstra conforto. Felizmente isso não atrapalha de maneira alguma a química entre os dois. É justamente nas nuances de olhares, apertos no braço que variam de intensidade e toques de mão que a sensibilidade é melhor explicitada.

É nesse cuidado que o filme busca poesia na crueza da realidade. Por exemplo, a inserção de uma trilha só acontece depois que Leo e Gabriel vão ver um eclipse juntos. Essa falta musical às vezes incomoda, mas é um pouco equilibrada com a fotografia que se permite enquadramentos deslocados e sensíveis. Porém é no roteiro que tudo isso fica mais evidente.

É necessário coragem para não ter medo de buscar uma realidade que pode ultrapassar as barreiras do cinema. Há um momento em que Leo usa o moletom que Gabriel esqueceu em sua casa para dormir. O ato de cheirar a peça de roupa e se permitir imaginar nos braços do recém descoberto amor em um simples moletom conversa com muitas experiências do próprio público. O mesmo acontece com a cena em que os dois tomam banho em um acampamento. A sutileza da reafirmação do desejo de Gabriel entra em embate com todos os sentimentos que, de alguma maneira, ele tentou esconder. Hétero ou gay, não há coisa mais relacionável que essa.

A película compreende seu propósito e entende que ela se basta na relação construída entre os personagens. Os coadjuvantes também fazem um bom trabalho (destaque para Isabela Guasco como Karina) e mesmo um ou outro clichê - como a inserção forçada de um par para Giovana no final - não diminuem o brilho da obra de Daniel Ribeiro.

Em sua introdução, o longa começa com o nome de Hoje Eu Quero Voltar Sozinho e termina relembrando a nomeação do curta, Eu Não Quero Voltar Sozinho. É mais do que um agradecimento a todos que acreditaram na história de amor de Leo e Gabriel. Acoplado ao último plano, é a conclusão de que a busca por independência e descobrimento não tem seu início e fim na adolescência. É um processo tão gradual que ela só começa a se completar quando enxergamos no outro a possibilidade de construir um pouquinho mais de nós mesmos.


quedelicianegente.com

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